Para falar sobre ser mãe
Elisa Lucinda é uma poeta que sempre renova os armários da minha mente. Fala sem manha, sem pieguices e com ousadia sobre aquelas pequenas coisas do cotidiano. Ela fala do jeito que eu às vezes penso e por isso, suas palavras me caem bem. Este texto aí embaixo é uma bela constatação-poema sobre a maternidade. Recomendo o site: www.escolalucinda.com.br 
De Elisa Lucinda Chupetas Punhetas Guitarras
Choram meus filhos pela casa fraldas colos fanfarras Meus filhos choram querendo talvez meu peito ou talvez o mesmo único leito que reservei pra mim Assim aprendi a doar com o pranto deles Na marra aprendi a dar mundo a quem do mundo é A quem ao mundo pertence e de quem sou mera babá Um dia serei irremediavelmente defasada, demodê Meus filhos berram meu nome função querendo pão, ternura, verdade e ainda possibilidade de ilusão Meus filhos cometem travessuras sábias no tapa bumerangue da malcriação Eu que por eles explodi buceta afora afeto adentro ingiro sozinha o ouro excremento desta generosidade Aprendo que não valho nada em mim Que criar pessoa é criar futuro não há portanto recompensa, indenização mesquinhas voltas, efêmeros trocos. Choram pela casa e eu ouço sem ouvidos porque meus sentidos vivem agora sob a égide da alma Chupetas punhetas guitarras meus filhos babam conhecimentos da nova era no chão de minha casa. Essa deve ser minha felicidade. Aprendo a dar meu eu, aquilo que não tem cópia tampouco similar E o tempo, esse cuidadoso alfaiate, não me conta nada Assíduo guardador dos nossos melhores segredos sabe o enredo da estória Vai soprando tudo aos poucos e muito aos pouquinhos Faz eu lembrar que meu pai também já foi pequenininho Que só por ele ter podido ser meu ontem Só por ele ter fodido com desesperado desejo minha mãe um dia eu existi. Choram meus filhos pela Nasa onde passeamos planetas e reveses Eu escuto seus computadores, eu limpo suas fezes faço compressas pra febre, afirmo que quero morrer antes deles assino um documento onde aceito de bom grado lhes ter sido a mala o malote a estrela guia Um dia eles amarão com a mesma grandeza que eu uma pessoa que não pode ser eu Serão seus filhos suas mulheres seus homens Eu serei aquela que receberá sua escassa visita Não serei a preferida. Serei a quem se agradece displicente pelo adianto, pela carona de poderem ter sido humanidade. Choram meus filhos pela casa Eu sou a recessiva bússola a cegonha a garça com um único presente na mão: Saber que o amor só é amor quando é troca E a troca só tem graça quando é de graça.
Escrito por Luciana às 19h25
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