“Vocês já repararam no olhar de uma criança que interroga? A vida, a irrequieta inteligência que ela tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea, definitiva, única – e verá pelos olhos dela que baixou vários risquinhos na sua consideração!” (Mário Quintana, em Para levar a infância a sério, retirado da dissertação de Ana, lógico.) Pergunta de hoje: “Mãe, por que o mesmo dia chama “hoje”?”. Tenho sempre esta sensação de baixar vários risquinhos na consideração dela quando a minha criatividade é insuficiente para encontrar uma resposta à altura da inteligência da pergunta. Hoje é o mesmo dia, amanhã é quando a gente dorme e depois acorda e ontem é o hoje que se foi. O dia é um monte de instantes e se os percentuais de instantes felizes forem maiores que os ruins, então o dia foi bom. Amanhã ninguém sabe, por mais que planeje. Ontem já era, não dá pra mudar. E o agora é esse beijo na boca que vai ficar guardado no ontem pra repetir amanhã.

Escrito por Luciana às 19h05
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DEUS E A PERINE

Um dia desses Nina viu a lua cheia e começou a tagarelar...que Deus morava dentro da lua, que a lua era a casa dele....que ele ficava lá de cima olhando todo mundo porque dentro da lua tinha vários "canos" de onde ele podia ver tudo que se passava com as pessoas. Ela disse ainda que Deus ficava lá dentro tomando cafezinho, comendo biscoito e olhando pra gente. Aí eu lembrei imediatamente daquela música "Paranóia" de Raul Seixas que diz assim: "...Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre... Sempre... sempre... Eu estava com Deus! Eu estava com Deus! Eu estava com Deus! Eu tava sempre com Deus!
Minha mãe me disse há tempo atrás Onde você for Deus vai atrás Deus vê sempre tudo que cê faz Mas eu não via Deus Achava assombração, mas... Mas eu tinha medo! Eu tinha medo!
Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha Com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro" A lembrança desta música foi imediata, porque até hoje eu "tremo, corro e apanho pra esconder" algum papel no chão com medo de ter sido uma anotação que eu fiz e que não se possa ler... E como diz Raul: "eu gosto de escrever, mas eu tenho medo"! Essa coisa da paranóia de estar sendo visto é muito forte em mim, uma espécie de mania de perseguição vitalícia que já faz parte da minha rotina. Fiquei imaginando um cara com pinta de Deus lá dentro da lua me vendo até fazer xixi e pensei que minha filha não deveria ficar com uma imagem de Deus assim. Na tentativa de minimizar essa futura perseguição divina, falei pra ela que Deus tinha mais o que fazer, que ele não ficava o tempo todo olhando pra gente até porque existiam muitas pessoas na face da Terra pra ele fazer o "serviço de acompanhamento". Mas ela não abriu mão e assegurou que ele nem dorme. Mas é claro que eu não desisti: "mas Nina, até quando a gente está tomando banho pelada Deus fica olhando pra gente?" e ela, sem medo de errar completou: "mãe, Deus vê até na hora que a gente tá na Perine tomando sorvete". Diante disso, cansei de contestar a certeza dela e só me restou pedir a Deus que abençoasse aquela maravilhosa calda de chocolate e todas as calorias ali contidas.
Escrito por Luciana às 22h28
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