Pedidos ao homem do baú de lembranças

Nina hoje perguntou ao pai se ele lembrava de ter colhido caju do pé do cajueiro para que ela comesse na mesma hora lá no Hotel-Fazenda para onde viajamos no último Reveillon. O pai respondeu que sim, que estava lembrado de ter tirado muitos cajus do pé enquanto ela ia guardando alguns numa cestinha e comendo outros. Parece que ela achou aquilo o máximo e falou assim: - Pai, sabia que na minha cabeça tem um homem que guarda uma caixa de lembranças? Aí de vez em quando ele tira da caixa uma lembrança e deixa na minha cabeça. Essa lembrança da gente tirando caju ele sempre tira da caixa! ---- Ao moço da lembrança que mora na minha cabeça, peço com urgência e também que por caridade: não me deixe esquecer de algumas coisas que já passaram! Daqueles momentos mágicos que preenchem o nosso corpo, a alma e o coração inteiro de alegria... Ei, seu moço do tal baú! Não guarda essa parte não! Deixa-a sempre na minha cabeça! Teve aquele abraço bom, aquele cheiro de pitanga, teve também o último pôr-do-sol que eu vi lá no MAM na semana passada. Teve também aquele beijo profundo, apaixonado daquele amor tão forte. Deixa aqui na minha cabeça todos os banhos de cachoeira que eu tomei na vida, mas deixa também a sensação da água gelada me matando de alegria e frio! Seu moço, pelo amor de deus, não deixa eu esquecer da praia de Garapuá às quatro da tarde nem do dia que eu ouvi o coraçãozinho de Nina batendo no primeiro ultrassom. Se eu pudesse, moço do baú, eu lembraria todo dia daquele rappel na gruta do Lapão e daquelas noitadas de devaneios e abaíra com minhas queridas amigas que me aqueciam com suas palavras. Não deixa eu esquecer (nunquinha mesmo) daquela música que me faz lembrar, lembrar, lembrar cada instante que passou, cada perigo, cada audácia e todo o temor. Deixa eu lembrar a cara do meu pai de vez em quando, porque eu já esqueci! E o cheiro da camisola da minha mãe? Ainda tem um pouquinho aí nesse baú? Se eu sentir, vou ficar mais calma como um bebê, não vai precisar nem de lexotan! A vida anda tão difícil, seu moço do baú! Não dá pra encontrar as pessoas que a gente ama todos os dias! Então passa aí rapidinho o rosto dos meus irmãos, dos meus sobrinhos, meus amigos do coração, das minhas tiazinhas velhinhas que eu tanto amo...vai! Passa rapidinho pra eu pensar neles ao menos uma vez ao dia. Não me deixa esquecer, nem por um segundo, da vista da cachoeira da fumaça pra eu constatar todos os dias quanta vida pulsa dentro de mim. E tem também, aquele rosto quentinho dela que grudou no meu logo depois de sair da barriga. Uma emoção que ainda não tem nome e só quem já pariu sabe do que eu tô falando. Eu sei que você já deve tá cansado, moço das memórias, de tantos pedidos. Eu sei que não dá pra tirar de dentro da caixa todos de uma vez! Mas só mais uma coisinha: quando um dia (dia daqueles do futuro) minha Nina estiver meio sozinha, deprê ou triste de doer, tira dessa caixa a lembrança desse meu amor, (que por ser de mãe, é às vezes meio confuso, saltitante, cansado) manda via fax, email ou por correio pra o homem do baú de lembranças que mora lá na cabeça dela (que até deve ser colega seu). Porque esse amor, seu moço, é o mais verdadeiro que eu tenho aqui dentro desse meu coração mole.
Escrito por Luciana às 13h27
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